Na Sala Pau Brasil, no segundo andar da sede da CVC Corp, em Santo André, cidade onde a companhia nasceu, Fabio Mader constrói, todos os dias, a rotina de uma empresa em transformação. É ali que ele recebe fornecedores, parceiros, executivos e colaboradores. É ali também que toma decisões que impactam diretamente um dos maiores grupos de turismo da América Latina.
Mas, antes de chegar a essa sala, a trajetória foi construída muito longe dali. E começa, literalmente, na rua.
Ao longo de mais de uma hora e meia de conversa com o M&E, Mader detalha, com riqueza de memória e precisão, uma jornada que mistura disciplina extrema, decisões difíceis e uma relação constante com pessoas, fio condutor que atravessa toda a sua história.
Da medicina ao aeroporto: o plano que mudou no caminho
O plano inicial era outro. Mader queria ser médico.
Aos 13 anos, foi para os Estados Unidos fazer intercâmbio e cursar o high school. A ideia era clara: seguir carreira na medicina, construir uma trajetória internacional e voltar ao Brasil formado. Chegou perto. Conquistou uma bolsa de 50% para estudar fora.
Mas a realidade financeira da família falou mais alto.
“Minha família não tinha condições de me sustentar lá. E eu precisei tomar uma decisão”, relembra. A decisão foi pragmática: trabalhar.
Sem um roteiro definido, voltou para São Paulo e fez o que muitos jovens fazem — saiu para procurar emprego. Foi para a Avenida Paulista distribuir currículos, sem direcionamento específico, batendo de porta em porta.
Até que entrou em uma loja da Varig.
“Perguntei onde eu poderia deixar currículo. A pessoa me disse que não era ali, que o RH ficava perto de Congonhas. Eu peguei o ônibus e fui até lá”, conta.
Sem indicação, sem processo estruturado, sem contato prévio.
Ao chegar ao departamento de recursos humanos, foi recebido por uma funcionária que fez uma única pergunta:
“Você fala inglês?”
A resposta abriu a porta. “Ela nem olhou meu currículo. Perguntou se eu queria fazer uma prova.”
Mader fez o teste ali mesmo. Foi bem. Disse que poderia trabalhar de madrugada — exatamente o perfil que a empresa buscava naquele momento. Saiu de lá com o processo encaminhado.
Era o início de tudo.
Ascensão rápida e liderança precoce

O ambiente operacional da aviação foi, para Mader, uma escola intensiva. Em menos de oito meses, assumiu a supervisão da Varig no Aeroporto de Guarulhos. O ritmo de crescimento continuou. Pouco depois, já estava em posição gerencial. Tinha 19 anos.
“Eu fui promovido muito cedo. As coisas foram acontecendo muito rápido”, afirma.
A velocidade, no entanto, nunca foi tratada por ele como acaso. Ao longo da entrevista, insiste em um ponto: não foi talento extraordinário, foi consistência.
“Eu nunca fui brilhante. Eu fui dedicado. Sempre me cobrei muito. Muito foco, muita disciplina.”
Essa disciplina, segundo ele, vem desde a infância. A mãe, relembra, dizia que ele acordava de madrugada para estudar. Um comportamento que se manteve na vida adulta, e que moldou sua forma de trabalhar.
Origem simples e conquistas coletivas
A base familiar é parte central da narrativa.
Mader relembra que viveu por anos com a família em um único quarto, com duas beliches, dividindo espaço com irmãos. Cada promoção, cada avanço, cada conquista profissional tinha impacto direto dentro de casa.
“Cada vez que eu era promovido, minha família comemorava.”
Foi nesse contexto que viveu um dos episódios mais marcantes da sua trajetória — e que ele relembra com emoção.
Ao ser reconhecido em uma campanha interna da Varig, foi convidado para um almoço com o então presidente da companhia. Para um jovem de origem simples, aquilo representava um marco.
Ao voltar para casa, encontrou a mãe e os irmãos esperando.
“A minha mãe perguntou: ‘você falou com o presidente?’ Eu disse que sim. E ela perguntou: ‘o que ele falou pra você?’”
A resposta virou símbolo.
“‘Mader, passa o sal’.”
A simplicidade da frase contrasta com o peso do momento. Estar ali já era uma conquista.
O abandono da medicina e a descoberta do propósito
Foi durante essa fase que Mader tomou a decisão definitiva de abandonar a medicina.
Não por falta de interesse, mas por clareza. “Eu percebi que gostava de pessoas. Mas eu podia cuidar de pessoas de outras formas”.
A liderança, o desenvolvimento de equipes e o contato com clientes passaram a ocupar esse espaço.
“Eu me encontrei nisso”.
O primeiro contato com a CVC: referência no mercado
Ainda na Varig, o nome da CVC Corp já fazia parte do seu cotidiano. “Eu atendia muitos clientes da CVC no aeroporto. Era uma honra”.
A empresa, segundo ele, se destacava claramente no mercado.
“Era a que mais crescia, a que mais aparecia. Era uma referência”.
Esse contato inicial, ainda que indireto, foi suficiente para marcar sua percepção sobre a companhia.
O 25 de dezembro que mudou tudo
Anos depois, já com carreira consolidada, Mader vivia outro momento decisivo.
Havia acabado de assinar contrato para assumir uma vice-presidência em outra empresa. Estava tudo encaminhado. Mudança planejada. Novo ciclo prestes a começar.
Foi então que o telefone tocou. A proposta da CVC Corp chegou no dia 25 de dezembro.
“Eu recebi o contrato no Natal”, revelou Mader.
A decisão exigia romper um compromisso recém-assinado, inclusive com multa contratual envolvida. Ainda assim, ele reconsiderou.
O fator decisivo veio de casa. “Minha esposa falou: ‘vai pra CVC, porque você vai poder dormir em casa todos os dias’.”
A escolha foi feita.
“Eu rasguei o contrato e fui”.

Construção dentro da companhia
A entrada na CVC não foi no topo. Mader passou por diferentes áreas.
Começou em operações, mas rapidamente migrou para produtos, primeiro nacionais, depois internacionais. Foi nesse momento que aprofundou sua visão estratégica do negócio.
A partir dali, acompanhou de perto movimentos estruturais da companhia, expansão de portfólio e evolução das marcas.
Cultura, essência e nova gestão
Hoje, como CEO, Mader conduz um movimento que define como resgate de essência.
A referência está na origem da empresa, construída por nomes como Guilherme Paulus e Valter Patriani.
“É trazer de volta a paixão. A paixão por vender, pelo cliente, pelo turismo”, revela.
Essa paixão, segundo ele, é o principal ativo que coloca “na mesa” todos os dias.
Democratizar as viagens e fortalecer a cadeia
O objetivo segue claro: democratizar o acesso às viagens. “A CVC sempre teve esse papel de levar a primeira viagem para o brasileiro”, afirma Mader.
Para sustentar esse posicionamento, a confiança da marca é central.
Ao mesmo tempo, o CEO reforça o papel das agências e dos fornecedores dentro do ecossistema.
“O maior ativo de uma agência é o cliente”.

E é nesse ponto que ele faz uma das declarações mais fortes da entrevista: “Se eu fosse agente de viagem, eu só trabalharia com a CVC”.
Liderança, decisões e rotina
Na liderança, Mader se define como um executivo orientado por dados. “Sou data driven”, diz.
Ainda assim, reconhece que experiência e contexto têm peso nas decisões, especialmente em um setor dinâmico como o turismo.
A rotina, segundo ele, mudou completamente após assumir a presidência. A agenda se tornou mais complexa, mais fragmentada e mais estratégica. Mas ainda encontra momentos para cuidar da saúde, física e mental e praticar seu hobby de jogar tênis, além de comemorar ao lado da família – principal pilar que movimenta a vida do executivo.
Ainda assim, faz questão de manter proximidade com as equipes – inclusive fisicamente.
No segundo andar da sede, não ocupa uma sala isolada. Trabalha ao lado de seus Vice-Presidentes e diretores, com telas exibindo indicadores em tempo real.
Conquistas, ambições e o que não abre mão

Ao falar sobre conquistas, Mader evita personalizar. Valoriza a trajetória, as etapas cumpridas e, principalmente, o impacto coletivo.
Sobre arrependimentos, não aponta episódios específicos. Prefere olhar para frente.
A ambição, hoje, também não é individual. “Meu objetivo é preparar a empresa para os próximos 100 anos”.
Mais do que chegar ao topo, a preocupação está em deixar legado.
E, no meio de tantas decisões, mudanças e responsabilidades, há algo que permanece inegociável.
“Valores e princípios”.
E, no fim, o que importa
Ao final da entrevista, a última pergunta é simples: o que há de mais especial na sua sala?
A resposta vem sem hesitação: “As pessoas”.
É uma síntese precisa de toda a conversa.
Porque, da Avenida Paulista à presidência da CVC Corp, passando por aeroportos, decisões difíceis e momentos marcantes, a trajetória de Fabio Mader não é apenas sobre carreira: É, acima de tudo, sobre gente.
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